quarta-feira, 16 de março de 2011

CARNAVAL – O QUE VALE É A IMAGEM

O carnaval é uma festa esplêndida, em constante transformação. Em sua essência, parece haver uma comunhão de alegria. Do inconsciente, jorra um mundo mágico de máscaras com personagens que gostaríamos de ser. O Brasil, então, torna-se o país dos sonhos. Dizem que seu carnaval é o maior porque exalta a paz.

Mas não custa nada fazer algumas observações. A invasão de atrizes e manequins como madrinhas de bateria das escolas de samba, por exemplo, soa um tanto sofisticada, artificial e fora de compasso. Nada contra a Luiza Brunet, a Gisele Bünchem ou a Cláudia Raia, pelo contrário, elas são lindas, sorriem até demais e exercitam razoavelmente o samba no pé. Entretanto, com todo o respeito à mistura de raças, quem é bamba sabe que ali está faltando ginga, ritmo e o verdadeiro requebrado de uma rainha do samba.

Não adianta a TV, através de seus locutores esportivos, querer meter na cabeça dos telespectadores que elas – as modelos e atrizes – estão arrasando na avenida e que o povão nas arquibancadas está indo ao delírio, quando as imagens são veiculadas e em nada correspondem ao que eles afirmam! Ou seja, o repórter fala que a modelo está com o samba no pé e a imagem mostra que ela é simplesmente esforçada e espalhafatosa.

Agora, ouvir uma dessas beldades, ao ser entrevistada após o desfile, dizer que “ama de paixão a escola de samba tal”, quando se sabe que ela desfilaria por várias outras, é dose! È como o jogador de futebol que faz um gol e corre para a torcida beijando a emblema do clube, embora todos presentes no estádio saibam que ele fez a mesma atitude quando jogava pelo time rival. O carnaval, assim como o futebol, converteu-se mesmo em espetáculo, ainda que venha com o invólucro da paixão.

Muitos pagam caro para sair no desfile de uma escola de samba. Como o carnaval é a apoteose da vaidade e uma grande festa para turista ver, aproveito para contar a historinha de um amigo que gastou uma grana para sair na Sapucaí. Ele viajou e pediu a todos os conhecidos que ficassem de olho na telinha. Gente, fizeram maldade com nosso folião! Deram-lhe uma fantasia que o tornou irreconhecível. Mas, folião que é folião não desiste nunca. Hoje ele sai no bloco dos sujos, aqui em Fortaleza, e é eterno candidato a vereador.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

EM SOLO LUNAR

Ultimamente minha imaginação deu para transitar com frequencia por mundos extraordinários e surreais. Às vezes, tenho até medo de estar ficando com o juízo fraco, como dizia meu pai quando me pegava lendo algum livro. No entanto, diante da realidade em que vivemos, é você, caro leitor, quem vai me dar o meu diagnóstico: se vivo no mundo da lua ou se estou com o pensamento obcecado por buracos.

Pois você acredita que me ocorreu de pensar que os trabalhadores da Cagece, ao escavarem esse novo buraco na Avenida Dom Manuel, aqui em Fortaleza, encontraram aquele túnel que levou os assaltantes até o cofre do Banco Central? Até aí, tudo é possível, nada demais. Acontece que, em minha ficção paranóica, os homens da Cagece se depararam com a turma do Alemão que, supostamente escondida, ainda contava pacientemente o restante do dinheiro fruto do famoso assalto.

Veja até que ponto vai este meu desvario. Noticiou-se que o governador Cid Gomes havia viajado à Europa para, dentre outros objetivos, verificar o funcionamento dos metrôs mais modernos de algumas capitais. Fui dormir encucado com essa questão. Não tardou muito e, durante a madrugada, sonhei que o governador não havia ido à Europa coisíssima nenhuma. Conforme meu pesadelo, ele havia entrado em um buraco do metrô, aqui no bairro Benfica, e ido à Maracanaú – tudo isso por debaixo da terra, afinal, metrô que se preze é assim. Ao voltar, Cid Gomes não achou a saída. Continuou perambulando pelos túneis do metrô e, enfim, chegou à estação Engenheiro João Tomé, no centro de Fortaleza. De lá, resolveu dar uma esticadinha até a praia de Iracema. Quando estava prestes a furar o Aquário, eu me acordei.

Também foi comentário geral o fato de que a prefeita Luiziane Lins estava um pouco afastada de seus secretários, vereadores e – pasmem! – da população. No estado mental alfa em que me encontrava, ela estava tapando o buraco da Avenida Leste Oeste, quando, por um breve descuido, caiu nele, sofrendo várias escoriações no rosto. Depois de alçada, levaram-na ao Instituto Doutor José Frota, Hospital de Traumas, conhecido como Frotão. Foi um fuzuê danado, pois, devido aos ferimentos, nem os médicos nem as enfermeiras a reconheceram. Luiziane repetia “Gente, eu sou a prefeita!”, ao que o pessoal respondia com mangofa ou cara feia. Neste momento, não me aguentei. Resolvi intervir no sonho para tomar suas dores, dizendo: “Vocês estão loucos?” (Imagine, logo eu falando assim!) “Prestem atenção, pois esta é, sem dúvida, a nossa prefeita. Olhem bem para ela!” O médico, então, fez menção de estar reconhecendo-a e logo quis atendê-la. Ela, porém, recusou-se e foi para o último lugar da fila. Alguém, então, gritou: “Essa é mesmo a nossa prefeita!”

Há ainda a história de que a cidade de São Paulo oculta uma outra cidade, completamente subterrânea, com enormes galerias de esgotos e muitas ratazanas. Boatos dessa natureza sempre me deixaram arrepiado. Depois tomei conhecimento dos bunkers de Saddam Hussein, no Iraque; das montanhas ocas habitadas pelo terrorista Bin Laden e seu séquito, na Arábia Saudita; das usinas nucleares instaladas debaixo das montanhas de Mahmoud Ahmadinejad, no Irã. Histórias assim só me põem cada vez mais de orelha em pé.

Esse meu frenesi nervoso e angustiante, relacionado a cavernas, cidades subterrâneas e passagens secretas, parece ter vindo de longe. Meu pai é que provavelmente tinha razão, ao se preocupar com minha mania de ler Júlio Verne, especialmente o livro “Viagem ao centro da terra”.

Meu caro leitor, dou-me conta de que minha psicose depressiva não tem nada a ver com os buracos de Fortaleza: eu, sim, é que estou de miolo mole!

NA TERRA DE MOREIRA CAMPOS

Em janeiro último, estive de férias em meu torrão natal, Senador Pompeu (295 km de Fortaleza). Fiquei surpreso com o número de jornais que parecem chegar à cidade: uns cinquenta, dentre assinaturas e os que ficam disponíveis nas bancas. Nos fins de semana, não encontrei onde comprar um jornal sequer.

Esse fato per si merece uma reflexão, haja vista que o universo populacional da cidade é de 15.000 eleitores, mais ou menos. Pelas informações que obtive, os periódicos que chegam por lá são lidos por funcionários públicos e bancários. E os universitários? E os estudantes do ensino médio? Pelo menos comprando os tais periódicos, ninguém os vê.

Certo dia, encontrava-me em um conhecido bar da cidade, o bar do Zé Edilson, a conversar com amigos e decidi deixar um jornal “abandonado” sobre outra mesa para ver o que acontecia. No entra e sai de tanta gente, ao cabo de uma hora, apenas uma pessoa pegou o jornal para olhar o caderno de esportes.

Por que na terra do escritor José Maria Moreira Campos, exímio contista, lê-se tão pouco? Sabe-se que não é somente Senador Pompeu que vive essa situação, pois boa parte das cidades brasileiras apresenta o mesmo problema. A questão é tão delicada que pode estancar todo esse clima de desenvolvimento no qual o país vive, justamente pela falta de uma educação de mais qualidade.

Um país que se quer grande e livre precisa investir na leitura. Ler um jornal de forma crítica, quando se é jovem, é como descobrir a fonte que serpenteia o caminho do conhecimento. O jornal também não pode ficar apenas numa atitude passiva, esperando que o eleitor vá até a banca para comprá-lo. Talvez falte ao jornal um maior envolvimento com a comunidade. Quem sabe, não será esse o seu futuro?

Milagre não acontece de uma hora para outra. Criar o hábito de ler em um país que viveu um tempo recente sob ditadura, demanda tempo. Enquanto não for feita uma reforma de distribuição de renda para que as pessoas possam exercitar efetivamente a democracia – e tanto uma família de trabalhadores como um professor possam pagar a assinatura de um jornal -, os jovens continuarão preferindo assistir ao raso programa big brother a ler um jornal.

sábado, 29 de janeiro de 2011

PROFESSOR - TRISTE REALIDADE

Ter sido filho de professora foi o diferencial em minha vida e, acredito, também o foi na de meus irmãos. Herdamos os seus valores éticos, morais, religiosos e, fundamentalmente, o prazer em aprender. Para mim, ser filho da professora Cristina Pessoa, em Senador Pompeu (275 km de Fortaleza), era viver sob uma expectativa de cobrança intelectual por boa parte da sociedade.

Naturalmente tornei-me professor, mas, a realidade foi outra. Embora portando diploma de nível superior e algumas especializações, o salário era irrisório. Desiludido, passei a estudar para enfrentar a maratona de concursos públicos – trajetória de grande parte dos jovens professores de minha geração.

A vida de professor se constitui de grandes dificuldades. Ele tem que dar aula em muitas escolas, o que acaba prejudicando a qualidade do ensino. Não obstante a Lei nº11. 738/2008, que garante o piso nacional da categoria um pouco acima do salário mínimo, o que se vê é o flagrante desrespeito aos docentes por parte de estados e prefeituras. Além do mais, existe o eterno atraso com o pagamento dos salários, do décimo terceiro e das férias.

Um país que quer ser desenvolvido jamais deve se esquecer de investir na educação de seu povo, pois esse é um fato registrado pela história das nações que prosperaram. Independentemente das matrizes ideológicas de qualquer governo, o investimento na educação brasileira ainda é insignificante. É como se fosse apenas uma satisfação política.

O resultado dessa situação são escolas que não dispõem de recursos tecnológicos básicos e apresentam uma quantidade razoável de evasão de alunos. Convém lembrar que muitas escolas das periferias de grandes cidades têm problemas sérios para contratar e manter seu quadro de docentes por conta das constantes ameaças sofridas pelos professores por parte dos próprios alunos.

É triste constatar que poucos são os pais de família que desejam para seus filhos a profissão de professor. Além dos parcos salários, a estrutura educacional não é nada atrativa. Foi-se o tempo de dona Cristina, em que o professor era chamado de mestre, mesmo sem ter mestrado. Hoje, muitos têm mestrado e doutorado, mas não são sequer chamados de professor.

domingo, 12 de dezembro de 2010

NOVOS CURRAIS

Como num festival de sacos de maldade, as empresas terceirizadas que prestam serviço às prefeituras do Ceará estão presenteando seus empregados com demissão. Esses trabalhadores foram contratados bem antes do último período eleitoral e, hoje, passadas as eleições, são jogados no olho da rua. Pelo visto, Papai Noel não teve a menor compaixão por esses indivíduos que entrarão na estatística dos desempregados.

Eles são demitidos com a promessa de que em breve retornarão a seus postos de trabalho. Mas quem garante? Em alguns casos, o vereador ligado ao prefeito, o secretário de obras, o chefete político ou alguém da própria empresa, isso para não queimar o filme do desgastado prefeito. Ou seja, na hora da demissão, o prefeito não aparece. Ele surge somente no momento da admissão com ares de herói.

Então vem a pergunta: o que diferencia o atual prefeito do antigo? Em termos de curral eleitoral, pelo menos, a cerca se modernizou, mas a dependência é a mesma. Convém frisar que esse assunto de demissão, ainda que via empresa terceirizada, não veio à baila durante os debates eleitorais de outubro. Será que os eleitores que votaram nos candidatos - deputados, senadores e presidente - desses prefeitos, caso soubesse que seriam demitidos, votariam nos mesmos candidatos?

O que se passa na cabeça dessas pessoas que perderam o emprego às vésperas do Natal? É difícil dizer. Provavelmente são resignados e irão rezar na esperança de retornar a seus antigos postos de trabalho. Nas condições do regime capitalista, a maioria dos trabalhadores não consegue vencer o medo de perder o emprego e esse fato é fundamental para mantê-los subjugados e sujeitos a todo tipo de assédio moral.

Por outro lado, o prefeito, quando chega ao poder - e tanto faz que seja de direita, centro ou esquerda -, esquece as promessas de palanque e as dores da população. Quase todos se enquadram na antiga e reacionária fórmula administrativa de pão e circo: uma obra mais ou menos, uma festa com bandas de forró, cujo cachê é uma fortuna para os cofres do município, e, quando muito, uma costura de acordozinhos domésticos entre vereadores que fazem parte do grupo em seu apoio na câmara.

O tal jogo de "contrata, demite e contrata", as obras insignificantes que jamais mudarão o perfil da cidade e os shows caros com artistas midiáticos apenas alimentam a alienação de um povo. Esse tipo de político conta com o adormecimento da sociedade e, como provam as experiências, ele e seu grupo tendem a reinar no município entre vinte a trinta anos.

O estranho é que, em plena democracia, os partidos de esquerda e os sindicatos dos trabalhadores virem as costas para esse e outros problemas sociais, não convocando a população às ruas, o que seria o seu papel. Na realidade, faltam ao município - e, por que não dizer, ao país? - uma cultura de participação política, cultural e social à base de reflexão e crítica. Não é só votar e esperar quatro anos para fazê-lo de novo. O espírito de participação crítica tem que lutar em favor de uma administração popular e contra os novos currais eleitorais para fazer a democracia.

DEMOCRACIA DIRETA - O CAMINHO

A situação das praias do litoral cearense - e quiçá de boa parte do país - é crítica. Polui-se indiscriminadamente a costa marítima: desde a indústria, que joga dejetos no mar, ao cachorro da madame, que deixa cocô na areia. Acrescentam-se ainda garrafas de plástico, vidros quebrados, restos de comida e toda uma variedade de lixo que desenha um cenário sujo na paisagem.

O problema se complica quando as praias são ocupadas de forma irregular por barraqueiros. Não me reporto aos donos desses quiosques, que também são responsáveis pela sujeira espalhada nas areias. Refiro-me aos ditos proprietários das médias e grandes barracas, essas que pretendem desempenhar a função dos outrora clubes sociais e que ofertam à clientela piscinas, além de restaurante e bares para shows.

O proprietário da mega barraca argumenta em seu favor que oferece muitos empregos e que tem o máximo cuidado com a higiene do ambiente. Não admite que vendedores ambulantes circulem por sua barraca, principalmente aqueles que vendem camarão ou peixe frito com cachaça. Nesse caso, democracia na praia parece ser também só de fachada.

A excessiva ocupação e a consequente poluição das praias se torna um problema sério, a curto e a longo prazo. Leis são desrespeitadas e decisões judiciais, cassadas. Tudo em nome do Eldorado de um "desenvolvimento" a qualquer custo, que às vezes se chama turismo. Para tanto, vamos gastar uma fortuna com o Aquário, também conhecida obra ao turista, não importando que grande parte da população cearense costume sofrer pela estiagem e a fome.

A campanha eleitoral acabou, mas as questões sociais, não. Portanto, esse debate está apenas começando e, se preciso, vamos às ruas. É hora de uma nova campanha, desta feita, sobre as barracas na praia, com a participação de toda a sociedade. O povo precisa construir o caminho da democracia direta para a solução dos graves problemas sociais.

LIÇÃO FRANCISCANA

Ter lido algumas biografias a respeito da curta vida daquele que se fez o Pobre de Assis não me dá o direito de opinar sobre a fé religiosa de quem quer que seja. Quando muito, posso dizer que aprendi com essas leituras, acrescidas de conversas com minha saudosa mãe, que um dos valores fundamentais na edificação de quem busca Deus está na humildade, princípio esse seguido à risca e propalado por São Francisco.
Nesse caso, quem se dirige ao Santuário Franciscano para fazer orações, agradecer ou pedir graças, normalmente o faz revestido de fé e humildade, aí compreendido o anonimato. Ainda há quem faça essa visita a pé. É bem verdade que hoje esses peregrinos são poucos. São homens e mulheres simples, gente do povo, que, ao avistarem a estátua do taumaturgo, têm as expressões do rosto revigoradas de solidariedade, marca registrada do Irmão Menor.
Isso não quer dizer que uma pessoa abastada, devido a um problema de saúde, velhice ou falta de tempo, não possa ir ao Santuário de automóvel. Pode e deve. Afinal, um momento de reflexão com os valores cristãos proclamados por São Francisco - eleito pela Organização das Nações Unidas (ONU) o homem do milênio - pode ser capaz de transformar a vida de qualquer cidadão, tal foi a força da radicalidade com que ele viveu sua opção em favor dos que sofrem, mormente os pobres.
Doutra, é inconcebível a postura antiética com que alguns políticos insistem em visitar o Santuário de São Francisco, ou de qualquer outro santo, em épocas eleitorais e acompanhados da grande mídia. Pretendem passar uma imagem de piedosos devotos, quando não passam de prepotentes e demagogos. Mal percebem que essa artimanha da politicagem não consegue mais fazer o povo de bobo.
Não é preciso, pois, ser um exegeta em questões franciscanas para constatar que riqueza não combina com humildade do Santo de Assis. E, como está difícil acreditar na honestidade dos políticos, também é quase impossível acreditar que um indivíduo arrogante possa ser um franciscano.